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Gabriel andava pelas ruas escuras, esperando por algo extraordinário. Já era quase madrugada e perdera o último ônibus.

A noite estava gelada e seca, como sempre era nessa época do ano. O pouco vento que conseguia atravessar as fendas entre os velhos prédios pichados o fazia se encolher, aconchegando-se no agasalho, na esperança de se sentir um pouco mais quente. Nas entradas dos muitos prédios abandonados na rua em que caminhava, havia cartazes com sinais de proibido entrar e de condenados à demolição. Alguns estavam condenados há décadas, outros foram fechados na última crise. Poderia demorar anos para que fossem demolidos, ou talvez nunca acontecesse. Eram também o lar de várias famílias sem qualquer outra alternativa, de mendigos e vagabundos.

Andava devagar pois não tinha nenhuma pressa. Já estava tarde e não poderia tomar banho quente ao chegar.  Ninguém o esperava em casa. Morava sozinho há três anos, desde que saíra do Orfanato.

As ruas estavam quase vazias, ou assim pareceria à primeira vista. As pessoas que apareciam nas sombras do Distrito XXII-D não o intimidavam. Passava por elas com o capuz do agasalho sobre a cabeça, sem fazer contato visual ou dar atenção às lamentações de pobres ou às prostitutas que lhe ofereciam um boquete por apenas E$6,00. Do outro lado da rua, sentia a vigilância de um cafetão disfarçado de mendigo, atento a quem aceitava ou não a oferta.

As sombras do distrito D se avolumavam na noite, quando as luzes das sirenes policiais sumiam e se iniciava o Recolher. Não havia, efetivamente, uma proibição de se ficar nas ruas após o Relógio Central badalar vinte e duas horas, mas a polícia não fazia mais rondas depois dessa hora a eletricidade dos distritos C, D, E e F era aos poucos cortada, como medida de economia, diziam. O último ônibus da noite passava já quase tarde demais, como uma brincadeira macabra para por em perigo aqueles que se atrasavam.

A ausência de segurança forçava as pessoas a se refugiarem em suas casas, mas Gabriel não se preocupava com isso. As ruas não lhe eram estranhas à essa hora e reconhecia os movimentos sutis que só as sombras permitiam: dois jovens em um beco, aguardando um velho ou uma menina atrasados, para assaltar ou estuprar. Talvez ambos; Uma mulher pedia esmola na calçada, próxima da porta do puteiro “Damas” e escondia debaixo dos trapos uma arma, possivelmente uma pistola; em bares iluminados com archotes e velas, homens cansados demais de suas próprias vidas jogavam em sinucas velhas e se embriagavam com bebidas de péssima qualidade. Cenas que mudavam de sujeitos, mas se repetiam dia a dia, desde sempre. Para Gabriel todos os rostos pareciam iguais. Os mesmos tipos de pessoas que ele poderia ter visto há seis meses, ou ainda há cinquenta anos. Os mesmos tipos de pessoas que ele veria em três ou talvez trinta anos.

Começou a caminhar mais rápido, para se esquentar e chegar logo em casa. Não eram os perigos imediatos e óbvios que o preocupavam. O Orfanato o ensinara bem e poderia lidar com quaisquer desses contratempos, se viessem importuná-lo. Pensava, na verdade, com aquilo que não podia ser visto. As grandes jogadas. Há algum tempo que não tinha mais noção de onde e quando elas aconteciam. Há seis meses, na verdade, que havia decidido fugir disso.

Tentava terminar as séries escolares Intermediárias. Com sorte, poderia conseguir uma vaga nas Avançadas. Suas notas eram boas o suficiente para isso. Suas economias permitiriam que as pagasse agora, e poderia, quem sabe, ter uma boa vida. Talvez se mudar, eventualmente, para os distritos C ou B, para um apartamento módico e com um emprego comum. Uma vida sem sobressaltos. Era o que queria, quando se afastou.

Foi o grito de uma mulher, não muito alto nem muito claro, talvez abafado por uma mão ou panos, que o despertou dos pensamentos. Perdera a concentração nas ruas. Um deslize amador e preocupante.

Puxou o zíper de sua jaqueta até o final. Uma névoa esbranquiçada se formava de sua respiração e, ao notar a aproximação de uma garota, magra e com uma arma escondida sob a blusa folgada, segurou com mais força o Visor Portátil Ankar que carregava. Acelerou um pouco o passo, atravessando a rua. Ao mesmo tempo, passou a outra mão no rosto, sentiu a cicatriz de um corte no lado direito e um arrepio percorreu sua espinha.

Havia escombros nas ruas: há poucos dias houve uma passeata que se desenrolou em uma revolta, violentamente reprimida. Carros queimados e pneus amontoados ainda estavam ali, já que ninguém se deu ao trabalho de tirá-los. As únicas coisas removidas foram os corpos. Ou o que restou deles. A luta mais sangrenta aconteceu embaixo de sua varanda. Ouvira os gritos enquanto, sentado em sua cama com as pernas cruzadas e vestindo apenas um short folgado, via televisão e comia uma tigela de macarrão instantâneo.

Os tiros daquele dia mataram quase trezentos protestantes, que exigiam que os racionamentos de eletricidade e mantimentos cessassem. Gritavam por segurança e direitos políticos para representantes de todos os Distritos. Eram tolos idealistas, claro. Nunca um protesto resolvera algo. Mas a bomba do Louco, isso foi efetivo. Dezenove policiais da Força de Controle – mais algumas dezenas de manifestantes. – viraram fumaça vermelha e restos de carne no chão. “Fumaça Vermelha” foi o título sensacionalista estampado na manchete do Diário no dia seguinte à explosão. Mais de seissentos feridos, de acordo com os números oficiais.

Seu prédio era um antigo edifício com tijolos vermelhos e muitas pichações. Havia um símbolo, uma representação de dois machados, que indicava que essa área pertencia a uma gangue. Gabriel a conhecia. Composta por adolescentes em sua maioria, eram violentos e baderneiros, movidos pelo sentimento de que a vida acaba logo. Eles estavam certos nisso, tinha que concordar. Eles o assaltavam quase toda a semana. Alguns socos, xingamentos e escárnio. Apenas uma vez cuspiram nele. Gabriel não reagiu, mas encarou o menino nos olhos. Lembrou-se do silêncio que se fez. Entregou-lhe o dinheiro e saiu. Depois disso, passou algum tempo sem se incomodado.

Voltou a ser assaltado, é claro. Mas era assim que funcionava. Não estava disposto a mudar o sistema. Ao menos sua casa estaria relativamente segura enquanto não causasse confusão, com apenas uma gangue tendo o controle da região. Seria muito pior se fizesse algo e criasse um vácuo no microcosmos do poder do Distrito D. Por isso, aceitava a perda de E$4,00 a E$10,00 por semana com a tranquilidade de um monge Cariote.

Três portas de aço separavam a rua do interior do prédio, cada uma com uma fechadura. A última estava quebrada, pois ninguém se dispôs a arrumá-la. Gabriel, ao passar por ela, precisou chutar algumas caixas de papelão com lixo que se acumulavam perto da escada. O vizinho do térreo não as recolhia há dias. Se não fosse pela porta dele ainda ter uma corrente grossa trancando-a, além de uma grade de ferro sem sinais de arrombamento, imaginaria que ele estivesse morto. Morar no térreo no distrito D era quase suicídio. Embora ainda fosse melhor que morar em XXII-E ou XXII-F.

A escada subia sem nenhuma iluminação, fosse a essa hora da noite ou em qualquer outro horário. Ouviu o choro do bebê de um dos apartamentos do primeiro andar, apelidado pela voz estridente da mãe de “Tchuqui”. Todos os dias, ela implorava aos gritos, pelo amor de deus que ele parasse de chorar. Isso nunca acontecia.

Gabriel se surpreendia como as pessoas do Distrito D ainda podiam acreditar em deus.

O segundo lance de escadas levava ao andar do velho. Ele nunca falou com o senhor de um daqueles apartamentos do segundo andar, mas todas as manhãs ficava contente por acordar com composições clássicas que não conseguia reconhecer. Acreditava – e gostava de pensar assim – que o próprio velho tocava, todos os dias, em um piano negro que ocupava toda a sala.

O terceiro andar, como o primeiro e o segundo, levava a um corredor escuro com dezoito portas. A sua era a quinta à esquerda, que dava para a rua lateral do prédio. Um espaço de quase dezenove metros quadrados, sem divisão entre quarto, sala, banheiro e cozinha. Uma casa sua, com cheiro de mofo.

A medida que caminhava pelo corredor, podia sentir o medo causado pelo barulho de seus passos naqueles que estavam dentro dos apartamentos trancados com correntes e grades de ferro. Houve um arrombamento no mês anterior, três mortos, dos quais dois foram violentados antes de assassinados. Tudo foi roubado.

Gabriel parou diante de sua porta. Abriu sua mochila, e retirou suas chaves. Olhou para as fechaduras. Abriu a grade com a calma e tranquilidade de alguém que está em um condomínio do Distrito B. Sua porta estava trancada também. Colocou a chave na fechadura, parou por um momento e sorriu ao virá-la e dar duas voltas.

A sensação de uma leve brisa invadiu o corredor abafado quando ele abriu a porta. Entrou. Após trancar a porta, foi até a janela, que dava para uma rua aberta e os escombros de um prédio do outro lado. Abriu a grade e o vidro, sentindo o vento. A vista melhorara muito desde a explosão, tinha de admitir. Observou o escuro do lado de fora, até virar-se para sua cama, cumprimentando um velho conhecido.

– Bata na porta, Caio. Não é educado invadir a casa dos outros. E também desnecessário.

Um garoto, não mais que dezenove anos, só um pouco mais novo que Gabriel, estava sentado de pernas cruzadas sobre o colchão com lençóis desarrumados. Usava um uniforme preto, colado ao corpo. Os cabelos castanhos estavam bagunçados e máscara pendia para trás.

– Queria testar seu sistema de segurança. Ele deve ser muito bom. Sequer consegui encontrá-lo.

Gabriel acendeu o fogão e pegou uma frigideira usada na bancada ao lado, ainda com óleo rançoso do dia anterior. A colocou no fogo. abriu o microondas e tirou uma embalagem meio aberta de comida chinesa.

– Não tenho um sistema de segurança. Custa muito caro, não tenho como pagar com o que ganho na Fábrica.

Colocou a embalagem ao lado do fogão. Abriu a geladeira e procurou algo. Havia apenas água, alguns restos de comida, um pedaço de pão sovado e duas cervejas, um dos poucos luxos que se dava. Pegou alguns empanados que estavam na porta e jogou-os na frigideira. O óleo do dia anterior estava derretendo e estalando. Gabriel puxou uma cadeira e sentou-se. Puxou um maço do bolso e acendeu um cigarro com um isqueiro prata. Ofereceu ao outro, que aceitou e também o acendeu, com um isqueiro idêntico.

– O que faz aqui? O Orfanato prometeu me deixar em paz. – Gabriel tragou o cigarro, olhando diretamente nos olhos do outro garoto.

– Não posso ficar com saudades de um velho amigo? Ou deixamos de ser amigos, só porque você conseguiu o Indulto? – Caio esboçava um sorriso no rosto e encarou Gabriel.

Gabriel sorriu. E bateu as cinzas no cinzeiro sobre a mesa.

– É claro que não. Mas achei que nunca mais fossemos nos ver.

– Pelo visto, estávamos os dois enganados. Eu, por exemplo, achei que você fosse trabalhar de freelancer e a essa altura estaria morando em uma cobertura no distrito B, como os outros Indultários.

Os empanados começaram a estralar.  Gabriel se levantou e despejou a comida chinesa na frigideira, remexendo. Deixou esquentar um pouco e jogou tudo junto de volta na embalagem.

– Servido? É comida chinesa. – Gabriel abriu a gaveta e pegou dois hashis, correndo os olhos pela sala.

– Não, obrigado. – Houve um silêncio – Não há bugs, a propósito. Mas não precisa confiar em mim. Pode procurá-los, se quiser.

Gabriel colocou a comida sobre a mesa e começou a andar pela casa.

– Eu fico impressionado como ainda chamamos de comida chinesa. – Abriu o único armário do apartamento, ao lado da pia e da banheira. Tirou o fundo, revelando um pequeno cofre. Inseriu um código no painel de cristal líquido e espetou o dedo em uma agulha. O cofre se abriu. Nele, havia uma caixa.

– Ainda falamos comida tailandesa, e a Tailândia caiu tem muito mais tempo que a China. – Caio falou.

– Pois é, não acha isso incrível? Como ainda temos esses cacos culturais? A comida, principalmente. – Gabriel retirou da caixa um pequeno aparelho retangular, com um visor transparente emoldurado por um arco plástico negro.

– Tem coisas que acho mais estranhas que isso. Você, por exemplo, me mostrando onde fica seu cofre.

Gabriel sorriu para Caio. Quando tocou o visor do aparelho, ele começou a funcionar. Um leve zumbido ecoou repetidas vezes, criando na tela de cristal uma imagem tridimensional do apartamento. Os dois continuaram fumando, agora em silêncio, enquanto Gabriel usava o aparelho por toda a casa. A busca durou o tempo da comida esfriar um pouco.

Gabriel guardou o aparelho na caixa e depois no cofre. Pegou a embalagem, jogou a guimba fora, sentou-se na cadeira, colocou os pés na mesa e começou a comer.

– Qual o trabalho? – perguntou.

– Não vai me dizer que não está interessado? Que saiu dessa vida, e que agora está estudando e quer levar uma vida normal? – Caio continuava com o meio sorriso. Deu a última tragada e jogou o cigarro pela janela.

– Não. Qual o trabalho? – Gabriel repetiu.

– Esperava que fosse mais difícil. – O meio-sorriso pareceu se tornar desdenhoso. Gabriel sentia o ar de triunfo vindo de Caio. Lembrou-se da última conversa deles.

– Não disse que aceitava. Qual o trabalho?

– Vamos roubar quarenta e cinco minutos de tempo.

Ambos ficaram em silêncio. O barulho de um tiro ecoou nas ruas, acompanhado por um grito de dor.

– Qual seria minha parte? – Gabriel perguntou.

– Apenas quero informação, Gabriel. Como você entrou na Torre Central. E, mais importante, como saiu?

Gabriel mastigou a comida. Uma luz passou pela janela, iluminando a casa escura. Deu outra mordida no empanado. Mastigou.

– Esquece, Caio. É impossível fazer do jeito que eu fiz. Não dá mais. A menos que você tenha outro plano, algum que não acabe na sua morte, não vai acontecer.

O sorriso de Caio morreu nos lábios. Seu rosto se transfigurou em uma máscara vazia, um olhar frio e distante.

– Você tem como me ajudar? – Ele perguntou.

– Não. Não tenho.

– Você vai me ajudar?

– Não, não vou.

– Vai contar a alguém minha missão?

– Não, não contarei.

– Pela Irmandade?

– Pela Irmandade.

Caio vestiu a máscara negra e dirigiu-se a janela. Passou uma das pernas para fora, e se virou para o amigo.

– Eu não acredito que você esteja feliz, Gabriel. Mas espero que sim, caso isso seja possível para nós.

– Obrigado. – Agradeceu. Caio já havia partido.

Gabriel levantou-se, ainda comendo, e olhou pela janela, para as ruas escuras. O vão que se abriu com a explosão entre os prédios deixava-o ver a Torre Central ao longe. Os ponteiros digitais do Relógio gigante seguiam seu curso e marcavam “23:52”. Os distritos centrais A e B, em torno da Torre, se mantinham iluminados. Os muros que separavam as seções de XXII também tinham luz e forte vigilância. Imaginou quanto tempo teria para dormir nas seis horas e oito minutos que faltavam para começar seu turno na Fábrica. Não deveria se importar. Caio sabia os riscos que corria.

Tirou a roupa, entrou no banho frio. Odiava chegar em casa em casa quando já haviam cortado a eletricidade. Caio saberia se cuidar, tinha certeza.

Pegou a toalha e se secou. Fechou a janela e as grades. Colocou o short folgado preto. Deixou na cama desarrumada e abraçou o travesseiro. Não deveria se importar, pensou logo antes de dormir.

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