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28 de fevereiro de algum tempo de minha vida, diretamente de um sonho perdido.

Eu não tenho o pulso da morte. Não me talho na repetição dos acasos ou quero segurança na minha vida. E sempre preferi me jogar nos precipícios para saber quão fundos são. Para mim não há nada mais enfadonho, mais mortal, mais terrível do que esta ignóbil rotina.

Odeio ver que não estou fazendo coisa alguma da minha existência. Como artista, deveria criar, transpor essa parcela do sonho ao que minha percepção acusa como real. Mas tudo o que faço é ficar preso por esses laços que os fracos desse mundo teceram para me segurar. Preso às vicissitudes do dinheiro e do trabalho que as faz necessidade para apenas e tão somente sobreviver. Odeio o tempo, odeio o espaço, odeio ter de viver um dia após o outro e dar um passo por vez. As pessoas nada mais fazem que se prender em seus medos, fazerem crer que a segurança, a estabilidade, a verdade são coisas boas. Eu não quero esse bom. Ele me enoja a tal ponto que as palavras para descrever somente existiriam entre os deuses e demônios de minha imaginação. Tolhem-me para que eu não os encare, que não levante a cabeça e lhes rosne. Têm medo de mim e do que desejo, pois meus desejos significam o fim do que prezam e anseiam.

Quero dançar sobre seus cadáveres. Sentir seus gritos de ódio e temor contra mim como a música que me embala. A minha diferença os irrita. Minha coragem os insulta. E é por isso que me querem como eles. Não há como descer mais baixo, querem me prender ali, nesse fundo do poço, nesse ninho escondido do vazio e do nada.

Colocaram uma cerca no meu precipício favorito. Uma placa dizendo que não. Um guarda para vigiar. Eles não querem que eu pule. Têm medo que me torne o espelho do que negam. Não querem ter de encarar o que poderiam ver refletido em mim. Seguram-me quatro mil mãos, me aferrolham e me amputam e me matam e me devoram. Inveja e medo lhes guiam, e mais nada.

Não me comportarei. Quebrarei a placa, assassinarei o guarda. Beberei seu sangue rindo histericamente. Temerão minha loucura, por certo. O sorriso de escárnio em seus lábios idênticos dirá claramente “é louco, não precisaremos dar-lhe ouvido”. Mas a essência da minha loucura é a sanidade que lhes perdeu.

Eu sorrio de volta, enigmático. A surpresa e o terror mais uma vez naqueles olhares. Eu sei. E posso dizê-lo em voz alta. Eu não ligo para minha sujeira, para meu lodo. Minha alma imunda se jubila em si mesma. Não preciso temer perder a castidade que não tenho. Não preciso fingi-la, como todos eles. E eu posso levantar-me, apontar o dedo, acusar. E então pular.

Um salto por um momento. Uma eternidade em uma  sobrevida. Os olhos incrédulos acompanham minha queda. Não ouvem o som, não veem o impacto. E a incerteza em permanece seus corações.

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