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Minhas lembranças não caminham com o tempo. Estão perdidas nessa torrente interminável de pensamentos. Um caos de imagens, palavras, sensações, sentimentos. Eu não sei diferenciar aquilo que sonhei do que vivi. No fim, minha outra vida, essa que surge quando fecho os olhos, também não sou eu, o que me forma e me diz algo?

Minhas lembranças não dizem uma coisa apenas. Elas vêm, vão, voltam, retorcem, misturam, fogem, gritam, fingem. São uma coisa fragmentada e medonha, um emaranhado de linhas e cacos e ecos. Eu me encolho diante delas. E, às vezes, rio. Um riso louco, tão distorcido quanto a imagem que tenho de mim mesmo. São cores aleatórias, pintadas com todo o cuidado para parecerem jogadas na tela disforme e já meio colorida que não mais sou.

Minhas lembranças cavalgam em sentimentos. Elas se deixam levar por meios tortuosos, labirínticos, angulosos, curvos, retos, quebrados, em abismos e falésias. Se jogam sem medo, despreocupadas com o que encontrarão. No meio de um mar cintilante, que queima com frio e calor, a dor de cicatrizes passadas ainda incomoda. Perdidas em dunas, seguem com sede e fome. E de vez em quando, quando muito, muito loucas, elas param para pedir direções às razões de meus dias. Nunca seguem o indicado. Não são muito boas nisso, eu acho. Ou talvez apenas gostem de ir para o lado errado e lembrar o que não esteve lá. Elas não podem voltar. Circulam, circulam, circulam e chegam em outro lugar. Nunca se repete a mesma lembrança duas vezes, e a história vai sempre se modificando. Entre um sonho e outro, ou palavras alheias, já nada é como me lembro mais. O que dizer? Não? Às vezes, é mais divertido deixar contar.

Minhas lembranças zombam de mim. Uma delas me mostrou a língua esses dias e não soube o que lhe fazer. Não se bate numa lembrança por uma velhacaria dessas. Elas são tão velhas como crianças sérias e não se pode fazer mal, se já estão tão mal-educadas. Vezes outras gritam em tempos impróprios, me pedem coisas tão embaraçosas. E eu, reles escravo de um passado, vejo ali no futuro aquilo que já estava lá. Elas são traiçoeiras também, me fazem ver coisas, esperar coisas, criar expectativas, que, vamos convir, deveriam ser proibidas.

Minhas lembranças são tudo aquilo que já não é mais. As guardo como tesouros e me alegro com os infortúnios. Uma lembrança constrangedora para nos arrancar uma gargalhada ou um momento terno para um sorriso cálido. Minhas lembranças não esperam. E estão aqui, esquecidas e perdidas, pulsando e aguardando. A nostalgia do que não aconteceu. A saudade do que virá. Os nomes aleatórios que ficaram gravados. As pessoas importantes que não sei mais quem são.

E talvez eu não as dê tanta importância. Estou ocupado demais vivendo. Mas se paro para pensar, vejo que o que faço é existir para elas. Nesse momento crio lembranças, e as alimento. Sou um fragmentário. Fazedor de pequenas ilusões, sinto o gozo e o tormento. E não consigo juntar os pedaços ou acertar estrofes. Minhas lembranças não andam comigo. Estão à parte, esperando que eu as tenha mais uma vez. Mas elas morrem a cada uma que toco, são outras já. Frágeis, não sobrevivem sequer a um sonhar. Ou talvez sejam eternas, não morrem, só mudam. Não acho que haja tanta diferença entre a eternidade e o momento.

Minhas lembranças não compreendem o tempo.

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