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Morro. A auto-imagem de um deus se glorifica nos suspiros finais, deixando claro a todos que não podem ser mais do que são. Pobres são aqueles que não podem agir de outra forma. Está além da própria natureza o direito a mudar. Deuses não mudam, mas jamais serão senão eles mesmos. Homens não mudam, mas não conseguem ser aquilo que porventura deveriam ser. O inexorável fluído do tempo, serpenteando em todas as direções, age sobre o espaço e me sufoca. Morro dizendo palavras doces, mas engasgado no fel amargo de minha boca. E para quê? Nada. Eu não os salvei, pois deles dependem a própria vocação. Eu não os ensinei, pois se algo lhes mostrei foi “podeis matar teu próprio deus”.

Eu me arrependo do que disse. Não havia porque feri-los assim. Mas eles não entenderão. De todo esse povo, não me importo se vivam ou morram. A você, no entanto, dedico outra coisa, tudo que posso lhe dar.

Não morro por lanças e pregos. Apenas por tristeza e abandono. Não culpo o mundo por minha falha. Deuses são perfeitos e distintos, uma mescla de defeitos tão baixos e sórdidos e pureza tão casta e límpida que parecem irmãos em si mesmos.

Ferido por duas vezes. Uma por eu ser quem sou e não evitar que isso acontecesse. Outra por você estar me olhando tão assim, sem eu poder fazer nada para lhe fazer sentir que eu estou – verdadeiramente – arrependido. Apenas não queria saber que você me olha assim, que me diz isso, que pensa dessa forma.

Sou falho com você. Em toda a perfeição que é inerente, não posso enganar, não posso mentir. Não posso lhe fazer sentir-se melhor. Dói apenas pensar que me perco assim, sem nem antes ter podido dizer o quanto me gostaria que pudesse ser diferente. E se o disse, por não poder saber, se algum dia, poderia de fato não estar mais chateado e me perdoar.

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