Tags

, , , ,

Há momentos na minha vida que me inspiram, dois em especial. A Solidão e a Companhia. Assim, escritos com letra maiúscula.

Acredito que, quase sempre, estamos meio sozinhos, meio acompanhados. Seja pelos outros ou por nossos pensamentos que vieram dos outros. Poder ser uma conversa, um livro, um filme, uma música, uma lembrança. Sentimos essas presenças ali, indistintas, quase naturalizadas em nossas vidas. Nossas vidas, feitas dessas gradações entre dois extremos, quaisquer que sejam eles. Entre o quente e o frio, o amor e o ódio, e todos os clichês que possamos pensar, são esses meios caminhos que nos tornam ordinários, averiguáveis e rotineiros. Se considerarmos que a Inspiração – assim, também dita com letra maiúscula – é um atributo quase divino e sobrenatural, então é preciso que ela seja extraordinária. E para ser extraordinária, ela tem que fugir ao comum do nosso espectro diário.

Talvez Aristóteles estivesse errado. O meio termo não seria a virtude. Ou antes, se o fosse, não seria a plenitude. Naqueles extremos, no próprio sim e não que fogem da nossa lógica binária, entendo ser possível alcançar esse estado em que, por algum motivo místico, eu me sinto – e talvez outros também – Inspirado.

E nesses extremos, encontro a Solidão e a Companhia.

Mais do que momentos passageiros, considero a Solidão e a Companhia elevações de espírito, estados indizíveis de um atributo inalcançável. E como eu teimo contra Wittgenstein (Primeiro), em falar do inefável – o mal de todo escritor, acho eu – penso em que significa a Solidão e a Companhia.

Comecei a escrever esse texto em um momento de Solidão. Não entendam a solidão como um momento sozinho, ou mesmo algo ruim. É quando olho pela porta da varanda, vejo ruas, um ou outro carro passando, absolutamente ninguém andando, a música não faz sentido e sinto-me completamente deslocado do mundo. Sinto-me só em meus pensamentos, em que nada me pertence e não pertenço a nada. A Solidão é não um desapego, mas antes um despertencimento do mundo. Algo como apenas sentir o mundo como sensorial, mas não o apreender, estar sozinho em si, quando seus pensamentos tocam apenas eles mesmos. Se temos uma fagulha divina, como dito por quase todas as religiões, eis o mais próximo que chego da minha. E a Inspiração surge, como uma ideia suave ou outras vezes um turbilhão.

E por vezes, estou absorto no Outro. Aquele que não sou eu, mas que me toca, me transforma. Uma intersubjetividade em que minha sintonia torna-se tão completa, tão plena, que simplesmente deixo de ser eu e me transponho. Um livro, um texto, uma passagem que me arrebata e faz-me esquecer de tudo aquilo que já pensei. Uma pessoa que me absorve, que toma meus pensamentos, que faz com que eu me esqueça. Sinto-me completamente inserido naquele mundo do Outro, vejo com outros olhos, sinto com outros sentidos, penso com outros pensamentos. Quando plenamente em companhia do Outro, corta-me a intersubjetividade inicial e apenas sou Outro, transposto para lá, que dá a apresentação de seu universo.

Inspiro-me em momentos puros. E vejo a pureza como extremos inefáveis, fagulhas que não podem, dada sua própria força de sentimento, perdurarem. Há uma passagem da bíblia que diz não podermos olhar o rosto de deus. Acredito nessa alegoria. O contato com o divino nos queima. Mas sobra o brilho que ilumina e do que podemos ver dali, que podemos reter, quando voltamos a nossos meios termos e gradações ordinárias.

Alguns segundos ou anos depois, escrevo. Mal de escritor.

Anúncios