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Em fuga de Atlântida, 26 de novembro de alguma Era de minhas lembranças.

Não pense que eu te abandonei. Vejo de longe as torres consumidas pelo fogo e as cinzas devoradas pelo mar. Meu pesar está contigo, e tens sempre meus pensamentos e sentimentos. Confio que sobreviverás. Eu fugi com os demais e estou aqui, no barco navegando rumo ao comum. E as mesquinhezas humanas que destruíram nossa casa fogem comigo. Não posso evitar de só ver decadência e banalidades. E não sei como conseguirei sobreviver com elas. Minha força está sendo minada aos poucos e não encontro mais resistências. Escolheste esconder-te dentro das chamas. Creia-me, estás ainda melhor do que eu. Estou sendo cada vez mais limitado pela fraqueza deles. Nossa Era, a dos Grandes Reis, se acabou há muito. Impera agora o domínio que se governa pelo medo e pela segurança. E tolhem-me a cada momento, cortam-me a carne, não me permitem crescer e ser quem sou. E eu estou cansado em minha luta e talvez… Não queira mais resistir.

A mim também o ninho lá embaixo, no fundo, parece aconchegante. E eles chamam-me, prometem-me e puxam-me para si. E se o que me resta é ficar no vento frio e cortante, nesse imenso nada que é aqui em cima, porque não descer? Eu imaginava ver um mágico, mas agora não vejo mais nada. Apenas o vazio me encara.

A cada dia que passa, este mundo me cansa mais e mais. Se meu lirismo e minha arte ainda me salvam, por quanto será? Não terei o reconhecimento dos fracos, e se o tivesse, sentir-me-ia como um deles.

Nossa ilha se perdeu, nossa Era se foi. Somos sombras esquecidas de um passado glorioso, que amedronta os comuns por sua força e grandiosidade. Não teremos lugar nesse novo mundo e não poderemos ser como eles.

Mas tenho ainda a ti, e tu tens a mim. Não te perca nas chamas e não te deixa devorar pelas águas. Entendo teu sentimento, sei o que é estar assim, limitado pelas imposições. Mas eu ainda te reconheço. Não posso permitir que caias, és meu último baluarte em tempos e terras tão nefastas. Se não tenho a ti, quem terei?
Somos apenas sombras e resquícios e ainda assim eles têm medo de nós. O que sentirão quando nos verem enfim?

Teu lirismo não morreu. Tua arte não fugiu. Apenas os tenho comigo. Cantarás, tocarás, recitarás quando estivermos juntos mais uma vez.
E se preciso for, mataremos de uma vez por todas o amor.

Daquele que te tem nos pensamentos,

Adeus.

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