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Foto tirada na 408/409 Norte - DF

Foto tirada na 408/409 Norte – DF

Ecos do passado ainda me sussurram.

Atingido por um fragmento, um mero nome veio à tona e despertou uma torrente esquecida e selada. Do fundo de minhas recordações, um grito se fez ouvir. Ressoou por todo o caminho e perdeu força nas minhas barreiras. E de toda a apoteose em que nasceu apenas uma palidez chegou até mim. Foi o bastante.

Convulsionado por lembranças que se libertaram aos brados indômitos de um clamor tão profundo, não pude resistir. Caí. E me perdi outra vez no que não existiu.

Olho em frente, não verei o que passou. Nada daquilo que poderia ver está realmente lá. Estilhaços se formam do tempo que ficou para trás e são apenas como sonhos, adaptam-se àquilo que desejo fazer sentido. Mentiras e ilusões juntam-se aos fatos que vivi e tudo o que foi não forma uma teoria unificada. Eis um quebra-cabeça que não se encaixa. E tento, desesperadamente, agora que me foi determinado, remontá-lo. A ordem imposta pelo tempo foi subjugada pelo anseio de uma mente inquietante e agonizante, cuja vontade reconfigura pequenos atos, dá novos significados.

Impressões parciais são o que sou. Nada mais que isso. Minha história, contada mil vezes, é mil vezes distinta. Meu passado não me condena, ele é aquilo que pode ser e não posso ser julgado por atos que ninguém contesta.

Nomes brotam sem controle. Sentimentos e razões misturam-se bacantes. Os nomes que cruzaram meu acaso podem ou não ainda me dizer algo. Alguns não lembro que são, outros marcaram-me a fogo. E todos pesam em meus ombros, como responsabilidades não cumpridas.

Mas o grito pálido ainda ecoa. Toca lugares que não queria saber que estavam aqui. Ressurge com coisas que demorei a matar. A nostalgia e o arrependimento trespassam-me e nada posso fazer. Atormentam-me as memórias, exigem seu preço. Não poderei pagar. São apenas fantasmas que pedem o que não podem mais ter. Passaram. Apenas o presente é puro, aquilo que não é o instante se limita e se mistura em vagas noções que podemos reter. Logo, das mais fortes impressões, apenas um leve formigar restará. Não posso fazer nada por essas lembranças.

Mas relutam e cobram, mesmo que eu em nada possa ajudá-las. Não querem justiça ou vingança, mas apenas justificação. O que posso lhes dizer? São o que são. Ainda que não sejam mais nada.

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