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Eu, oito anos, sentado na bancada da cozinha olhando minha avó fazer bolo. Eu ajudava com os ingredientes e queria que terminasse de batê-los juntos logo. Não tanto pelo bolo – que também aguardava esperançosamente – mas para raspar a vasilha e comer a massa crua. Pela abertura da basculante de alumínio com plástico fosco, via a piscina do vizinho. Estava vazia. Eu fazia muitas perguntas sobre tudo, mas especialmente sobre quando o bolo ficaria pronto. Terrível era saber que, mesmo depois de assado, precisaria esperar duas horas até esfriar.

Eu, seis anos, sentado na bancada da cozinha olhando minha mãe e minha avó prepararem o almoço de domingo. Era comida para vinte pessoas. Sorrateiro – ao menos na minha visão de criança – roubava as bananas fritas e comia escondido, virando para o outro lado. Era invariavelmente descoberto. Brigavam comigo, mas de brincadeira. Pela abertura da basculante, via a piscina do vizinho cheia de gente. Ouviam música ruim e bebiam cerveja. Pareciam se divertir. Eu não queria tanta gente lá em casa.

Eu, nove anos, sentado na bancada da cozinha olhando minha avó bater a massa para o bolinho de chuva e de sal. Eu preferia a versão salgada, com queijo dentro. Comia ainda quente logo que ficavam prontos, com suco de caju. Pela basculante, via a piscina do vizinho com algumas pessoas, especialmente crianças. Alguns eram meus colegas. Eu sorria.

Eu, sete anos, sentado na bancada da cozinha olhando minha mãe e minha avó cozinharem bacalhau para o almoço do domingo de páscoa. O bacalhau estava ali em uma bacia desde a noite anterior. Para mim, nada mais natural ele – um peixe do mar – nadar na água que ficou salgada por sua própria carne. Pensava que seria a última vez dele na água. E também que não gostava de bacalhau. Pela basculante, a família do meu vizinho estava tranquila. Costumavam almoçar na área externa da churrasqueira em datas festivas. Eu comia batatas fritas no mesmo esquema ninja das bananas.

Aos onze anos, era muito velho para sentar na bancada. Jogava video-game enquanto o almoço era preparado. Zerava Final Fantasy VII. Meu save poderia ter sido publicado em revistas especializadas. Matei o Esmerald Weapon e Sephiroth no primeiro turno do combate e completei absolutamente tudo do jogo.

Gosto dos momentos de minha infância. Lembro-me da bancada da cozinha, da basculante fosca entreaberta, das pessoas que me cercavam e da comida. Gosto especialmente da lembrança da minha avó conversando comigo enquanto cozinhava. Só sinto em não me lembrar das conversas. Afinal, como um bom gordinho, estava ocupado pensando na comida.

Sentar na bancada da cozinha é uma das minhas mais queridas lembranças. Graças a ela, a cozinha é até hoje um lugar muito feliz na minha vida. Tomei para mim o processo de preparação como parte do ritual necessário para comer e entendi, a partir disso, como é bom partilhar momentos.

Essa é uma das evocações de quando era criança. Uma das minhas marcas felizes. Impressiona-me como esses momentos eram fugazes e rotineiros, mas ainda assim imprimiram-se em mim com tanta força e ajudaram a formar, em alguns níveis, minha personalidade.

Não sei realmente se as marcas da infância são mais profundas que as marcas da adolescência e da vida adulta. Mas sei que há conforto nas boas lembranças. Assim como há angústia nas lembranças ruins. Muitos pensam na infância apenas como um tempo de felicidade, mas desafio qualquer um a encontrar um ser mais angustiado que uma criança que sabe ter feito algo errado. E não se engane, pois quando éramos crianças, sempre sabíamos quando estávamos certos e errados. As coisas se misturam apenas quando ficamos velhos.

Sei também que tenho um sorriso interno quando me lembro de estar ali sentado, olhando pela basculante, comendo bananas fritas, batatas ou raspando a vasilha da massa de bolo.

Não sei se acredito que as pessoas mudam. Penso que somos apenas versões melhores ou piores de nós mesmos, e que isso pode passar por mudanças radicais. Mas no fundo, ainda temos as velhas noções de certos e errados da nossa infância, embora possamos hoje aplica-las de formas completamente diferentes.

Resumindo, passei a gostar de bacalhau quando fiquei mais velho. O importante, no entanto, é que continuo extremamente feliz pelos bolinhos de chuva e bolinhos de sal. Especialmente se acompanhados de suco de caju.

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