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O Farol ilumina o caminho até fora da tempestade. Meu barco flutua conforme a vontade das ondas. Joguei os remos fora e pacientemente espero ser engolido pelas águas, arremessado contra as pedras.

Sigo impassível o ritmo retumbante dos trovões. Sou guiado por ventos que – sei bem – querem apenas meu pior. Não tema por mim. Aceitei meu destino com a serenidade que só o saber do profundo desconhecimento das intimidades do mundo pode dar.

O Farol está lá: aponta zombeteiro o porto-refúgio que me salvaria. A leda ilusão do arrependimento. De quem desesperadamente tentará remar mesmo que com as mãos. De quem se jogará nas águas insurgidas, afoito por esta única chance de conseguir apenas mais um momento.

Eu sei o que me espera. Não me lancei ao mar com sonhos bravios de superá-lo. Apenas deixei-me levar nestas correntes: desejos de absolutamente nada. Daquele porto que me chama de volta, nada quero. O refúgio que oferece não me é bom o bastante.

Um raio corta o céu para acertar-me. Olho-o lasso. Erra-me. Tolo. Não se pode temer quando não se tem mais o que perder. E o que ainda tenho é pouco demais para pesar.

Aquilo que cabe em meu barco. Não mais que as roupas que uso e os pensamentos que tenho. Minha vida. Sinto-a vibrar no assovio das rajadas de vento e nos tremores das ondas. A música da tempestade embala. Mas não conforta. Nem engana. Quer matar-me.

Outro som ecoa em meus ouvidos, vindo dançando sobre as águas. As flautas doces e a festa daquelas pessoas quentes e felizes em suas mesas: conversam e riem. Tenta-me mais uma vez, Farol. A música da terra sobrepõe a do mar nesses instantes, chamando. O sabor do calor, o riso de outrora.

Eu não vou. Este canto de sereia não me convencerá, eu o conheço, pois saí de lá.

As rochas aproximam-se, o mar engolfa-me.

Respiro profundamente por três vezes, aguardo.

Fecho os olhos, espero.

Tudo de novo.

Não tema por mim. Ao menos uma vez, fui dono de meu destino. A luz do Farol não me cegou, o calor do porto não me acalentou. Quando tudo podia ser, apenas fui. E isso bastou.

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