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Foto tirada em passagem subterrânea de Brasília - DF

Foto tirada em passagem subterrânea de Brasília – DF

São os cacos da banalidade que me perturbam.

As necessidades inerentes à condição de humano em sociedade angustiam-me. Não há nada mais tenebroso para alguém como eu do que essa prisão do dia-a-dia. A rotina mata-me e aos poucos só resta-me essa casca vazia, que olho no espelho todos os dias.

Não estou fazendo um texto poético, ainda que assim soe. Estou apenas reclamando do fato de precisar de dinheiro, de ter de trabalhar e estudar para poder viver o dia de amanhã. Eu não sou desse material.

É muito errado não acreditar no capitalismo e nem no comunismo? E também, não ser um anarquista?

Na verdade, no fundo mesmo, eu não me importo. Acho que jamais me importei com o mundo e como ele gira e continua a girar. Eu vejo arte nos atos e classifico pessoas como quadros e paisagens. Eu sou um materialista tão nato que até meu senso moral e místico se baseia na estética. O que sou não é nada. O que defendo não diz coisa alguma. Eu rio.

Gosto do meu mundo com muitos deuses, mitos e histórias a serem contadas, mudadas, repetidas de mil formas distintas.

O mundo de deus ou da ciência é estéril e vazio. Cheira-me à morte, estática, conformismo e conservadorismo. Vejo engrenagens rodando e nada me dá mais medo do que pensar que posso ser uma delas.

Quero quebrar o relógio. Mas não quero deixá-lo parado. De forma alguma quero que o mundo – e tudo – esteja certo, sequer duas vezes ao dia. Quero mais que tudo rodopie de forma insana e que meu paraíso aconteça. Meu caos, uma libertação de ondas de desejo.

Mas não me engano. Eu perdi há milênios. Minha Era acabou com a queda da Babilônia. E agora eu percorro os fragmentos do tempo, morrendo por cada conta que vejo paga, por cada regra instintivamente seguida, por cada pequeno e insignificante gesto social que esconde, por trás, uma gama imensurável de padrões e rotinas.

Afinal, não estou perdido. Apenas sei que não tenho mais lugar. Nós, velhos deuses, estamos mortos. E apenas nossa carcaça continua lutando pelas misérias de crença que remanescem.

E uma carcaça é uma carcaça, por mais que sorria e lhe diga “tudo bem”. Mortos-vivos mais temidos não são aqueles que morreram e voltaram à vida. São aqueles que estão vivos, mas morreram em si.

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