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No dia 02 de abril de 2014, conheci a Dona Zilda. Zilda Bessa. Uma mulher negra de 54 anos que catava papelão na frente daqui de casa para se cobrir e poder passar a noite embaixo do toldo de uma oficina na rua de trás.

Desci naquele dia para buscar o cartão magnético de acesso ao estacionamento que peguei emprestado com a Luísa Anabuki – aproveitando, mais uma vez, muito obrigado! – pois meu carro passou alguns dias naquela época sem o vidro do carona. (Parênteses para contextualização: Ele foi quebrado ao deixá-lo de madrugada no Setor Bancário Sul após meu Happy Hour de despedida do escritório em que trabalhava, O Alino & Roberto Advogados.) Quando saí da portaria do meu prédio na noite de abril, vi Dona Zilda entre os contêiners de lixo catando coisas. Dei sorriso, disse boa noite e perguntei “tudo bem?”.

Ela me respondeu com um sorriso sincero, ainda mais feliz que o meu, ao mesmo tempo que me contava que acabou de achar uma garrafa térmica no lixo. A garrafa bem nova e que tinha até café dentro quando a pegou. Naturalmente ela jogou o café fora, pois queria usá-la para colocar água e passar a noite ali debaixo do toldo da oficina.

Perguntei seu nome. Há algo quase místico quando você pergunta o nome de pessoas em situação de rua. Elas sorriem. Há uma grande importância no nome das pessoas, foi algo que aprendi em algum momento que talvez conte em outra oportunidade. Quando a pessoa se torna uma indigente, ou mesmo quando passa a viver na rua, uma das primeiras coisas que a sociedade lhe tira é seu nome. Podem lhe dar esmola, podem dar comida, mas nunca sabem seu nome. Estendi e apertei sua mão. Outro momento em que ela sorriu.

Dona Zilda me contou sobre seus nove filhos, sendo que um deles deus já levou, e estas foram suas exatas palavras. Conversamos sobre a noção do que é certo ou errado e ela me disse que é juíza, só faltou estudar. Falou sobre um dos seus filhos, que fez bagunça e o juiz o mandou para o Galpão, o que inferi que fosse a prisão. Falamos do marido dela que já faleceu e do Plínio, o atual companheiro, das pernas grossas que ela se referiu com um grande sorriso. Falou sobre as mulheres que davam em cima dele e que tinha ciúmes. Ela me contou uma reportagem que viu na televisão, de um homem daqui de Brasília que matou a esposa que o estava traindo. Falamos – nesse caso, eu – sobre como uma traição não justifica uma morte. Dona Zilda concordou comigo e passamos a falar sobre fazer o bem, sobre como ela não diz palavra pesada para nenhuma pessoa. Falar traz peso e citei uma frase da minha mãe “palavras tem poder”, com a qual Dona Zilda concordou, sorrindo mais uma vez e balançando a cabeça. Ela também me disse que quando a gente pensa no mal as pessoas sabem que estamos pensando no mal, por isso devemos sempre pensar no bem. Ela me falou dos lugares que davam comida a ela e de onde não davam, apontando para os restaurantes aqui perto de casa. Foi uma ótima dica, pois nunca mais fui naqueles que lhe negavam comida.

Começou a chover e o papelão dela estava molhando. Eu a avisei sobre isso e ela me levou pela mão até o lugar em que ia dormir. Seu companheiro, Plínio, estava ali já dormindo e, portanto, não fui apresentado. Nos despedimos. Eu dei algum dinheiro para ela, o que pude na hora. Mas ela não me pediu nada, agradeceu pela conversa. Afinal, o que tentei mesmo foi dar a ela o mínimo que toda pessoa deve ter, ser tratada com dignidade. Torço ter conseguido. Nunca mais vi Dona Zilda Bessa, mas sempre lembro dela.

Final da história, o cartão não estava no carro. Estava na minha mesa aqui em casa e eu não precisava ter descido naquele dia. Ainda bem que desci.

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