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A inauguração de uma nova coluna no Mil Palavras sempre me causa apreensão. Primeiro, por ainda não ter muita consciência do formato ideal que ela tomará. Segundo, porque a partir do momento que ela começa, estou firmando um compromisso de continuá-la periodicamente, o que pode tomar um tempo que muitas vezes não tenho. Feliz ou infelizmente, considero este projeto meu plano A de vida, por isso tomo-o como parte principal, mesmo diante de outras responsabilidades. Assim sendo, escolhi inaugurar essa coluna, mesmo no meio de tantas outras atribuições.

As colunas Recomendo, Experiências e esta, Inspirações, dizem muito sobre aspectos particulares da minha vida. Não que meus outros trabalhos, sendo fragmentos de meus pensamentos, não o façam. Mas aqui isso é muito mais explicito e portanto muito mais pessoal. Especialmente, a coluna Inspirações trata daquilo que Schopenhauer classificou como Sublime. A experiência que nos toca além das palavras e da explicação. Acredito que a Inspiração e o Sublime sejam conceitos interligados e presos em um mesmo circulo vicioso. O Sublime nos inspira, a Inspiração nos faz criar algo Sublime. É sobre o que desejo falar, daquilo que me toca profundamente, além de críticas, de racionalizações. Diria que quero falar quase de experiências espirituais, ou além da nossa compreensão cognitiva. Quero falar do inefável.

O Sublime nos toca. Pode ser uma obra prima criada pelo ser humano, ou mesmo algo grandioso visto na natureza. Ele pode ser uma sensação de completo êxtase ou completo terror, que nos subjuga e nos toma por inteiro. O Sublime é uma das causas principais da Inspiração, embora não seja a única.

A inspiração, ao meu ver, é aquela fagulha de criatividade que nos faz começar algo. Ou que, durante a execução, nos faz ter aquela ideia para tornar aquilo Sublime, uma obra prima. Inspiração é quase um dor, uma necessidade de transpor aquela ideia para o mundo, talvez porque nos gera a certeza que o mundo precisa que aquilo seja feito. Ela pode surgir de qualquer coisa ou de coisa alguma e varia de individuo para individuo. Assim, descreverei aqui quais são minhas fontes de Inspiração, ou seja, o que considero Sublime, sejam elas gerais – coisas que me inspiraram para a vida – ou mesmo especificas – aqueles momentos que me inspiraram para um determinado texto, foto ou qualquer outro trabalho. São momentos que dividiram meu antes e depois, que reformularam meus paradigmas, que me acrescentaram em algo tão profundo, que mudou alguma das minhas concepções. E dado minha atual conjectura de trabalhos, acho importante falar sobre o que me inspira na literatura de ficção especulativa.

Sempre fui fanático por fantasia.

Aos seis anos, quase obrigava meus amigos a brincarem de faz-de-conta comigo, inventava histórias e personagens fantasiosos e sempre havia magia envolvida. Passava horas sozinho na piscina, nadando de um lado para o outro, saltava e mergulhava, imaginando que estava voando e fazendo mil maravilhas sobrenaturais. Imaginava-me como mago, vampiro, super-heroi e super-vilão (meus favoritos, admito). E soltava bolas de fogo antes de sequer saber que outras pessoas tinham já pensado nesse conceito – que é genial. Caverna do Dragão foi um marco em minha vida. Assim como Cavaleiros do Zodíaco, Yu Yu Hakusho e outros animes que me inspiraram para o fantástico.

Conheci o RPG aos dez anos e foi uma abertura de paradigmas. Interpretar personagens e criar histórias que pudessem ser compartilhadas, ter um sistema que pudesse permitir isso na minha imaginação e saber que havia pessoas que tinham esse mesmo interesse foi algo que me acompanhou pela vida inteira. Meus melhores amigos foram feitos em mesas de rpg e de bar.

Mas minha grande revolução de pensamento quanto à Fantasia como gênero literário foi Sandman, de Neil Gaiman.

Tive meu primeiro contato com a obra de Neil Gaiman aos 19 anos, e arrependo-me profundamente de ter demorado tanto. Até então – e admito aqui meu preconceito – considerava a literatura de fantasia e quadrinhos como algo “menor”. Não entendam errado, eu amava e amo esse gênero literário. E tinha lido grandes nomes dela, como Tolkien e Phillip Pullman, assim como já tinham me sugerido ler Sandman e as obras do Neil Gaiman.

Mas foi apenas quando um amigo me emprestou um CD (era 2005 isso) com Sandman completo que eu finalmente vi na fantasia algo de sublime.

Eu devorei Sandman com avidez. Foram três dias dedicados a sua leitura atenciosa, a ver o traço, a entender cada frase. Perdi uma prova na faculdade por conta disso, faltei aulas e sou grato por não ter estágio na época, ou tenho certeza que teria faltado também. Cada página era uma fonte infinita de inspiração e de beleza. Fiquei absorto com a obra, com as nuances dos personagens, como cada coisa se ligava a outra e ao desenvolvimento da história. Se Gaiman não escrevesse mais nada (e as demais obras dele possuem quase o mesmo nível de beleza e inspiração) eu já defenderia para a vida que ele mereceria um Nobel da Literatura, apenas por Sandman.

Há um sistema cosmológico poético em Sandman. Há filosofia envolvida, conceitos complexos tratados com arte. Toda a construção do cenário, micro e macro cósmico é tão bem feita, tão tocante e tão sincera ao leitor que toca profundamente, despertando, ao menos em mim, a consciência do Sublime. Sandman é uma daquelas obras que pode deixar alguém verdadeiramente louco. Simplesmente porque ela poderia ser real.

Sandman me inspira no sentido de me fazer crer que a fantasia como gênero literário pode alcançar patamares que em nada deixam a desejar ao realismo, realismo mágico, literatura contemporânea, etc. Além disso, a habilidade de contar histórias demonstrada por Gaiman me inspira em crer que é possível fazer algo complexo, belo e ainda assim dentro do que eu sou apaixonado. Amo literatura de ficção especulativa. E foi Sandman que me mostrou que ela é efetivamente Arte.

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