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A primeira dificuldade para esta seção do Mil Palavras foi escolher o que recomendar. Considerei sites, filmes, autores, artistas, séries televisivas, revistas em quadrinhos e outras formas de arte e entretenimento. Nesse processo de escolha, fiz uma lista imensa de futuras recomendações – o que foi muito útil -, mas decidi que começaria por uma das minhas maiores paixões: Livros.

Sendo este um projeto voltado especialmente para literatura e fotografia, pensei que começar com livros poderia dar a impressão errada sobre a coluna Recomendo. A de que se trata de resenhas de livros. Admito que essa era a primeira ideia, mas na construção do Mil Palavras decidi que seria uma coluna para recomendar tudo aquilo que eu considerasse bom. Embora, é claro, haja poucas coisas tão boas quanto um livro.

Portanto, para iniciar essa seção, escolhi um livro que li recentemente. Recomendo a leitura de Grandes Esperanças, de Charles Dickens. Tenho uma quase vergonhosa lacuna com os escritores anglo-saxões clássicos – estou trabalhando para mudar isso – e ganhei recentemente este livro de presente. Achei uma excelente oportunidade para ler mais de autores ingleses e americanos desse período do século XIX e começo do século XX. Fico feliz em dizer que não me arrependo dessa escolha.

Charles Dickens é um autor inglês famoso na Era Vitoriana. Nasceu em 1812 e faleceu em 1870, dentre seus livros mais famosos estão “Um Conto de Natal”, “David Cooperfield” e “Oliver Twist” (tive uma pequena ajuda com o wikipédia com as datas). Escreveu muito e quase sempre em folhetins, com publicações mensais de capítulos de seus livros, depois reunidos em romances. Particularmente, o gênero folhetim me agonia, por tornar o romance um tanto repetitivo, ao ter que reexplicar partes anteriores. Mas quando convertido em romance, Dickens teve o cuidado de reeditar essas partes, criando uma obra coesa.

Grandes Esperanças é um romance escrito na maturidade de Dickens. Possui, para a época, críticas sociais contundentes quanto ao sistema aristocrático, a formação de castas sociais e também ao sistema prisional desumano. Hoje, para quem lê, a crítica é quase conservadora, mas a leitura contextual é importante para entender a importância que o livro teve em relação a isso na época de sua publicação.

Grandes Esperanças é um ótimo livro, com frases perfeitas. Há momentos em que parei para lê-las repetidas vezes, de tão bem construídas elas são. Dickens tem uma força de escrita fenomenal, a qual – li a versão traduzida – acredito que deva ser ainda maior no original em inglês. As frases são um elemento muito importante em uma obra literária. A força de uma frase muitas vezes salva o livro. Não estou falando de frases de efeito – feitas para serem obviamente impactantes -, mas sim daquelas genialmente construídas e belas, e por isso impactantes. E isso Dickens faz com maestria.

Dickens também possui uma excelente construção narrativa. Sabe guiar a história para que as relações interpessoais sejam mais importantes que as personagens em si, fazendo com que percebamos os sentimentos envolvidos em cada elo existente. Os afetos e desafetos tornam-se a parte mais essencial e bem desenvolvida da trama, sendo nessas interconexões que ele mostra seu maior talento.

No entanto, essas redes de relações interpessoais são fruto de coincidências dignas de romances espíritas, tão forçadas que são. Acredito que isso se explica pelo formato folhetim, sendo desenvolvido a medida que se analisava a reação do público. Os ferrenhos defensores de Dickens nesse ponto dizem que coincidências estranhas também acontecem na vida real, mas as de Grandes Esperanças superam qualquer perspectiva.

Quando o li, pensei que talvez ele devesse ter exagerado ainda mais nelas, tornando-as fantásticas e fantasiosas. Algo como o filme Magnólia (uma possível recomendação futura). Acho que tentar tratá-las como naturais não foi a melhor estratégia, mas fazia parte do estilo dele.

Minha outra crítica à obra é que as personagens (femininos e masculinos) são um tanto planas e focadas demais em um único aspecto de personalidade. Os estereótipos são bem demarcados, não fugindo muito daquilo que são desde sua apresentação. Sinto falta de profundidade na maioria delas e até as mais desenvolvidas ficam aquém do que eu esperaria. Como um conjunto, são personagens envolventes, bem construídas dentro de seus arquétipos, mas falta uma última fagulha de vida nelas. São óbvios em suas qualidades e defeitos, desde o primeiro momento. Novamente, eu penso que isso se deve ao formato de folhetim, em que era necessário demarcar bem uma personagem para o público.

Grandes Esperanças possui um enredo interessante, costurado em uma história cheia de coincidências que levam de uma personagem a outra, tornando todas as relações interligadas. Quase uma novela de hoje, Dickens talvez tenha alcançado sua notoriedade justamente por isso. É um grande romance, cuidadoso nas construções textuais e que soube evoluir a narrativa de um ponto inicial até seu fim sem se perder, formando uma obra coesa e de leitura agradável.

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