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Eu sempre fui gordo. Fui um desses bebês gordos que todo mundo quer morder, depois uma criança gorda e feliz, um adolescente gordo com espinhas e agora um adulto gordo.

Há um motivo para a ênfase na palavra gordo. Não usei – ou usarei – fofinho, gorduchinho, gordinho ou qualquer eufemismo e diminutivo. Acho importante usar a palavra gordo aqui. Sempre que a ouço é como estivesse ouvindo sobre algo nojento, pejorativo e que deve ser erradicado. Mas ser gordo não é sinônimo de ser doente. Por isso, em um esforço linguístico aplicado, a usarei para justamente naturaliza-la.

Nunca tive problemas de saúde durante minha infância, adolescência ou boa parte da minha vida adulta por ser gordo. Talvez porque, embora gordo, nunca comi mal. Comia muito, mas não gostava de biscoitos, chips, batatinhas e outras dessas “besteiras” diárias que normalmente as crianças se entopem. Tomava refrigerante quando tinha, mas nunca fui ávido por dois litros de guaraná por dia (nunca gostei muito de coca-cola também), mesmo porque eu sempre preferia suco. Comia muitas frutas. Na guerra entre o doce e o salgado, era um militante do exército com sal. Sempre fiz atividade física, no conceito mais amplo do termo. Passava tardes inteiras na piscina, no quintal e na rua brincando durante a infância. Depois fiz artes marciais na adolescência e comecei a correr no início da idade adulta. Mesmo assim, nunca deixei de ser gordo.

Também nunca tive traumas por conta de ser gordo. O pouco bullying que sofri resvalou em mim e não me marcou como algo que tenha me prejudicado de alguma forma, ao menos até onde me percebo. Minha vida sexual e amorosa não era prejudicada por ser gordo – não que fosse a mais movimentada do mundo, mas isso era por outros motivos. Também nunca fui o gordo engraçado, desesperado por me enturmar e por aceitação, o que, paradoxalmente, me fez ter um bom convívio social em que isso não definia minha personalidade. Resumindo, ser gordo nunca atrapalhou minha auto-estima.

Ou seja, embora gordo eu sempre fui saudável. Sempre tive muito peso, mas tenho uma estrutura óssea e muscular que o suportava e portanto ele não me limitava muito. Mas isso mudou nos últimos quatro anos e me preocupou bastante, ao ponto de eu pensar nisso como um problema e querer resolvê-lo, emagrecendo.

Se eu disser que o critério estético não conta para a vontade de emagrecer – ou seja, deixar de ser gordo – estarei mentindo. Conta muito. Somos, hoje em dia, programados para que conte. Eu gosto mais da minha auto-imagem quando estou mais magro. Eu me sinto melhor quando minhas roupas servem com folga ou quando não tenho que passar duas horas em uma loja procurando algo que me sirva. Mas pessoalmente, isso sempre foi uma questão secundária.

No entanto, nos últimos anos, eu engordei demais. Estresse no trabalho, falta de tempo para comer direito, comer muitas besteiras que não comia antes, beber muito, exercitar pouco, tudo isso contribuiu para que minha saúde e qualidade de vida decaíssem. Não era mais ser gordo. Eu me tornei obeso nessa época, algo que não era saudável. Estava com problemas de apneia, roncava muito e dormia mal. Minhas taxas sanguíneas começaram a ficar desequilibradas. Me cansava à toa e não aguentava fazer coisas que antes eram tranquilas, como subir três lances de escada ou correr 50 metros sem ofegar. Esses foram os motivos porque comecei com as dietas. Afinal, porque não uma dieta? Todo mundo faz, emagrece e pronto.

Há aqui uma distinção muito importante. Eu fazia dietas não para ser saudável, mas para ser magro, pois me parecia que era a mesma coisa. Ninguém me dizia: seja saudável, mas sim: tem que emagrecer. Por exemplo, um médico louco que eu consultei queria me passar sibutramina sem sequer ver meu histórico cardíaco ou realizar qualquer exame prévio, e deixou bem claro que todos os meus problemas de vida – sejam físicos, emocionais ou espirituais – eram porque eu era gordo. Esse episódio me marcou e revendo foi uma das sementes do meu pensamento atual, pois me levou a ponderar o quão absurda se tornou a indústria do emagrecimento.

Por uns três anos eu fiz dietas para deixar de ser gordo. Muitas vezes me enganava, dizia que era reeducação alimentar. Não era. Era uma dieta. A sensação que tenho hoje é que todo mundo diz que é reeducação alimentar, todo mundo se engana desse jeito, inclusive muitos médicos e nutricionistas (embora ache que a maioria deles até mesmo acredite nisso). Mas encarando os fatos: É uma dieta. Um plano alimentar com severas restrições, tipos de refeição predeterminadas, calorias contadas, etc. E o ingrediente mágico delas: culpa.

Quando eu as fiz, perdi peso, é claro. Talvez isso seja o mais pernicioso da ilusão da dieta. Se eu somar todo o peso que perdi nesse tempo, deve se aproximar de uns 40 quilos. O problema é que – sempre – eu os ganhava outra vez. Então, nos últimos três anos, meu corpo sofreu o estresse de variar aproximadamente 80 quilos em uma briga que tive comigo mesmo. E como efeito colateral, não apenas voltava ao meu peso original, mas ficava mais obeso. E sinceramente eu me preocupei muito quando, em dezembro do ano passado, eu atingi o maior peso da minha vida: 135 quilos.

A dieta é um esforço mental continuo, um foco de força de vontade que obriga a pensar em comida o tempo todo. É uma vigilância e uma briga constante contra seu próprio corpo.

Nosso corpo entende a dieta como privação. Quanto mais restritiva, mais ele entende que está passando fome. Junte a passar fome o excesso de exercícios físicos que muitos fazem conjuntamente e o corpo entenderá que a situação está crítica. Não apenas está privado de alimento, como está precisando desesperadamente de energia.

Talvez a dieta restritiva funcione para algumas pessoas. Mas pelas experiências que acompanhei, inclusive a minha própria e pelo que li, é uma parcela bem reduzida. E não me parece valer a pena.

Em janeiro de 2014, eu li um artigo de uma pós-doutora em nutrição que dizia exatamente isso (peço desculpas, mas não guardei o link do artigo ou o nome dela, então não tenho como indicar. Veja o TED e o site com informações que coloquei no final, são sobre o mesmo tema, pode ajudar). O quanto dietas não funcionam e o quanto isso é uma agressão ao seu próprio corpo. Foi quando conheci o conceito do Mindful Eating, ou Comer Consciente.

Já havia essa ideia difusa na minha cabeça. Já tinha pensado sobre isso antes, mas nunca tinha sistematizado ou ativamente compreendido esses pensamentos. Ao ler sobre, eu decidi tentar seguir o que ela sugeria.

Primeiro, eu deveria fazer as pazes com meu corpo. Eu sempre fui e muito provavelmente sempre serei gordo. Posso emagrecer mais vinte quilos, e continuarei gordo. Saber disso, aceitar isso, me deu paz. Eu preciso, na verdade, encontrar minha faixa saudável. E o que eu podia saber naquele momento era que estava fora dela, pois minha obesidade me fazia mal.

Segundo, entender que comida ruim é um vício. Comer mal (alimentos muito açucarados, industrializados, gordurosos com gordura trans ou mesmo comer muito além do que preciso) é viciante. É como todas as drogas: muito bom quando se faz uso recreativo, uma merda quando se vicia. E para isso serviu o ponto um, fazer as pazes com meu corpo e começar esse processo de cura em busca da minha faixa saudável. Livrar-se desse vício é a parte mais difícil, na minha opinião.

Terceiro, comer conscientemente. Isso é bem subjetivo quando se tenta explicar, mas é muito mais fácil na prática. É retirar a relação de culpa com a comida e tornar o ato de comer uma experiência prazerosa e não excessiva. Significa comer quando tenho fome, comer até a sensação de satisfação e não ficar empaturrado. Comer com paciência e com atenção ao momento. É comer alimentos bons e o mais naturais possíveis. O critério de natural é excelente para uma alimentação saudável. Mas comer conscientemente também significa que eu posso comer um hambúrguer do McDonalds se assim quiser, desde que tenha consciência de que esse tipo de alimento me prejudica e que por isso não devo exagerar nele. Comer conscientemente é um exercício de autorreflexão muito interessante, na verdade. E quando ele se torna um hábito, é como respirar. E eu parei de pensar em comida.

Talvez esse seja o ponto alto: parar de pensar em comida. O maior problema que vejo hoje com as dietas é que o tempo todo eu pensava no que ia comer e no que me privaria de comer. Alimentava um desejo misturado com culpa por aquilo que não podia comer, mas queria muito. E quando cometia um deslize, não comia um tablete de chocolate ou uma bola de sorvete. Comia a barra e o pote inteiro.

Também voltei a ter uma rotina de atividade física. Escolhi correr pois é uma atividade que gosto. Achei importante encontrar algo que gosto de fazer e que não seja um sacrifício, ou seja, levei o conceito de comer conscientemente para me exercitar conscientemente. Penso que é muito melhor quando faço algo por realmente apreciar aquilo, pois não preciso me obrigar e sofrer. Ninguém gosta de sofrimento, ao menos quando ele não lhe dá prazer. Não acredito que alguém genuinamente se acostume com sofrimento. Acredito que alguém possa se conformar com ele. Por isso, dentre meus novos hábitos saudáveis, quis encontrar algo que me relaxasse. Passei a deixar que meu corpo se preocupasse com meu gasto calórico e com o quanto eu precisava comer, mantendo a consciência de minha alimentação.

Eu parei de me privar em relação a comida. Estou me tornando consciente do que como e dos meus hábitos alimentares. Eu não faço mais dieta, apenas procuro me alimentar de coisas que gosto e também adquirir novos gostos que sejam saudáveis e o mais naturais possíveis. Mas se tenho vontade de sorvete, eu tomo sem me culpar depois. Eu me exercito com algo que me relaxa. Parei de pensar em comida. E me peso com regularidade, para acompanhar meu processo.

Não há saída fácil nesse caminho de ter uma relação saudável com meu corpo. A minha perda de peso é gradual e acredito que ainda vai demorar bastante, pois estou me reajustando a uma faixa de peso saudável. Mas quero me certificar que isso seja feito da maneira menos traumática possível.

Minha qualidade de vida melhorou. Meu sono melhorou. E eu perdi nesses últimos oito meses doze quilos. Eu sinto que ainda não estou na minha faixa saudável. Mesmo porque, se estivesse, não estaria perdendo peso ainda. Mas estou deixando meu corpo decidir isso. Minha parte consciente é me alimentar melhor, me exercitar melhor e parar de agredir meu organismo com privações loucas e sem sentido, ou me torturar indo para a academia puxar ferro. Prefiro ser um gordo saudável e feliz.

Por fim, recomendo este vídeo:

http://www.ted.com/talks/sandra_aamodt_why_dieting_doesn_t_usually_work?utm_content=awesm-publisher&awesm=on.ted.com_h0NxZ&utm_medium=on.ted.com-facebook-share&utm_source=facebook.com&utm_campaign=

Ele basicamente fala o que eu acabei de relatar. Tive contato com ele no dia 10/08/2014, oito meses depois que começar a agir assim. E fiquei feliz de saber que tem mais gente que está pensando como eu.


PS: Assim que acabei essa publicação, fiz uma pesquisa sobre o Mindful Eating. Achei este site: http://www.thecenterformindfuleating.org/
Fica como dica também.

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