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- Foto tirada na Nicolândia, Parque da Cidade - DF

Foto tirada no Nicolândia, Parque da Cidade – DF

Casa de Espelhos

Eu sou fragmentos espalhados
de pequenas verdades e mentiras sobre mim
superposição recortada por olhos indulgentes
impressões deixadas ao acaso.

Eu, análogo ao paradoxo
Não sei das figuras minhas
Contraditório como tudo
Sigo sendo filho do jogado
Outros virão, dirão e contarão
Coisas que sou eu, não sendo mais

Eu não posso dizer quem sou
Entre luz e sombras
Por corredores repetidos
Procuro meus reflexos multifacetados.
Eu, preso numa casa de espelhos
De um sinistro parque de diversões
Vivo em ironia:
Não enxergo a mim mesmo

Eu não posso dizer o que sou
Espreitam-me olhares retorcidos
Alheios à minha vontade
Nas imagens que enxergam
Sinto-me despido e acuado
Temo ser o que pensam de mim
E o que minhas figuras irrefletidas lhes dizem

Eu não sou, contudo, um simples somatório
Sou também subtração, divisão e multiplicação de ideias
Numa expressão da matemática subjetiva
Sou resultado de tantas quantas são as imagens
Que se completam e se contradizem.
Eu sou algo não-único.

Eu não sou, somente, eu.
Um pronome não me designa
Não posso ser representado por uma só palavra
Não consigo ser somente eu.
Cada um dirá algo
Algo novo, algo não visto, algo já desmentido
Deixarei de ser eu. Somente.
Do que sou eu nada sobrará
Senão peças de um quebra-cabeça que não se encaixa.

Eu não sou, portanto, eu.
Sou uma infinidade de proposições e preposições
Sou de verbos e adjetivos
Tantos mais do que poderiam me definir
Sou imagens distorcidas impressas em retinas parciais
Esperando por cores que não existirão
Sou um descobrimento de coisas velhas
E um descarte de coisas novas

Eu não sou, afinal, eu.
Sou uma combinação improvável
De cacos espelhados
Eu não sou eu ao final.
Sou apenas tanto mais e tanto menos
Do que são meus fragmentos.

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